CARTA AO LEITOR

 

O papel protetor dos anticorpos séricos nas infecções das vias aéreas inferiores de lactentes pelo Vírus Sincicial Respiratório

 

The protective role of serum antibodies to lower respiratory airways infection caused by Respiratory Syncytial Virus in infants

 

El papel protector de los anticuerpos sericos para infección de la via aerea inferior causada por el Virus Respiratorio Sincicial

 

 

Sandra Elizabete VieiraI; Alfredo Elias GilioII; Edison Luiz DurigonIII; Bernardo EjzenbergIV; Larry AndersonV

Divisão de Pediatria Hospital Universitário da USP
IDoutora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da USP
IIDoutor em Pediatria. Chefe da Enfermaria de Pediatria do Hospital Universitário da USP
IIIProfessor Titular de Virologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP
IVLivre Docente do Instituto da Criança, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina da USP
VChefe do laboratório de virologia do CDC-Atlanta

 

 

A infecção das vias aéreas inferiores (IVAI) por vírus sincicial respiratório (VSR) ocorre preferencialmente nos primeiros meses de vida, fase em que praticamente todos os lactentes têm anticorpos específicos para o VSR, adquiridos por via transplacentária1. A maior parte dos lactentes com IVAI por VSR não apresenta fatores de risco para a ocorrência2,3. Esses dados levaram à hipótese de que faltaria, aos acometidos por IVAI, o anticorpo específico para o genótipo viral infectante4.

A hipótese foi testada por nosso grupo em estudo prospectivo que avaliou os anticorpos séricos específicos para VSR em lactentes internados por IVAI5. Foram comparadas as prevalências de anticorpos em infectados por VSR versus não infectados pelo vírus; também foi verificada a presença de anticorpo específico para o genótipo infectante. As técnicas foram desenvolvidas no Laboratório do Centers for Disease Control de Atlanta e no Laboratório de Virologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, e estão descritas em outra publicação5. Foram 117 os casos com IVAI por VSR (grupo VSR+), onde, 86 (73,5%) eram do tipo A, 24 (20,5%) do tipo B e sete (6,0%) não puderam ser tipados. O seqüenciamento genético viral foi possível para 71 amostras do vírus. Os genótipos identificados foram: A5 - 28 amostas, A2 - 21 amostras, A7 - 1 amostra, B3 - 17 amostras, B5 - 3 amostras, e B4 - 1 amostra. Outras 75 crianças, com IVAI porém sem a presença de RSV, constituíram o grupo controle (grupo VSR-).

Anticorpos séricos para VSR foram detectados para o antígeno A do VSR em 172 (89,6%) dos 192 lactentes hospitalizados com IVAI; e em 153 (79,7%) desses contra o antígeno B do vírus. As soroprevalências de anticorpos específicos anti A e anti B nas crianças com infecção pelo VSR de tipo A, B e não infectadas por VSR foram semelhantes. Da mesma forma, as soroprevalência de anticorpos séricos subtipos específicos foram semelhantes nestes três grupos. O número médio de anticorpos subtipo específico anti-A para os três grupos foram, respectivamente, 2,24, 2,46 e 2,36. O número médio de anticorpos subtipo específico anti-B para os três grupos foi 1,09, 1,25 e 1,19.

A prevalência de anticorpos séricos subtipo específicos foi avaliada nas crianças infectadas por VSR dos genótipos A2, A5, B3 e naqueles sem infecção pelo vírus. Os anticorpos subtipo específicos tiveram prevalência semelhante nesses quatro grupos. Os anticorpos subtipo específicos anti-A2 e anti-A5 estavam presentes mesmo nas crianças infectadas por VSR dos genótipos correspondentes - A2 e A5.

A estimativa de quantidade desses anticorpos séricos específicos para VSR nos lactentes com IVAI, foi semelhante nos lactentes infectados por VSR do tipo A, do tipo B e naqueles sem infecção pelo vírus. Também foi estimada e comparada a quantidade de anticorpos séricos subtipo específicos nos lactentes infectados por VSR do genótipo A2, A5 , B3 e sem infecção pelo vírus. A quantidade de anticorpos subtipo específicos foi semelhante nos grupos avaliados. Não foi obtido um nível sérico (título de anticorpo) que pudesse proteger contra infecções pelos genótipos A2 e A5, os mais freqüentemente isolados.

Todas as mães dos lactentes hospitalizados com IVAI que foram avaliadas apresentaram algum anticorpo sérico subtipo específico anti-A e anti-B. Os anticorpos séricos subtipo-específicos anti-A1 e anti-A2 foram mais frequentes que os demais anticorpos e estavam presentes na ampla maioria das mães.

Os mecanismos fisiopatogênicos que determinam a ocorrência de IVAI apenas em parte das crianças infectadas pelo VSR estão pouco esclarecidos. Alterações da imunidade e/ou da integridade da via aérea parecem envolvidas na patogênese. Isto é evidenciado por alguns fatores de risco para a IVAI por VSR - prematuridade, baixo peso ao nascer, imunodeficiência congênita e adquirida, e a doença cardio-respiratória prévia6. A presença de anticorpo específico para VSR não havia mostrado papel protetor para IVAI pelo vírus4, e observamos que o anticorpo subtipo específico também não protege o lactente da infecção pelo genótipo correspondente. Deve-se atentar que a ministração de grandes quantidades de anticorpos por via parenteral é eficaz na proteção à IVAI por VSR, terapêutica recomendada a grupos de risco, mas nessa circunstância os títulos séricos alcançados são muito superiores aos verificados em lactente não tratado6-9.

A fisiopatogenia da IVAI por VSR persiste obscura, e dificulta o desenvolvimento de vacina para o VSR10. Caso sejam confirmados os resultados observados, não são os anticorpos séricos de aquisição transplacentária que determinam a proteção da via aérea inferior ao VSR.

 

Referências

1. Ogra PL. Respiratory syncytial vírus: the virus, the disease and the immune response. Paeditr Respir Rev 2004;5:S119-26.

2. Vieira SE, Stewien KE, Queiroz DAO, Ejzenberg B et al. Clinical patterns and seasonal trends in respiratory syncytial vírus hospitalization in São Paulo, Brazil. Rev Inst Med Trop Sao Paulo 2001;43:125-31.

3. Myao CR, Vieira SE, Gilio AE, Hein N, Pahl MMC, Betta SL, et al. Infecções virais em crianças internadas por doença aguda do trato respiratório inferior. J Pediatr (Rio J) 1999; 75:334-43.

4. McGill A, Greensill J, Craft AW, Fenwick F, Toms GL. Measurement of antibody against contemporary virus lineages of human respiratory syncytial virus subgroup A in infants and their mothers. J Clin Virol 2004;30:73-80.

5. Vieira SE, Gilio AE, Durigon EL, Ejzenberg B. Lower respiratory tract infection caused by respiratory syncytial virus in infants: the role played by specific antibodies. Clinics 2007;62:709-16.

6. Meissner HD, Rennels MB, Pickering LK, Hall CB. Risk of severe respiratory syncytial virus disease, identification of high risk infants and recomendations for prophylaxis with palivizumab. Pediatr Infect Dis J 2004;23:284-95.

7. Weisman L. Populations at risk for developing respiratory syncytial virus and risk factors for respiratory syncytial virus severity: infants with predisposing conditions. Pediatr Infect Dis J 2003;22:S33-S39.

8. PREVENT Study Group. Reduction of respiratory syncytial virus hospitalization among premature infants with virus bronchopulmonary dysplasia using respiratory syncytial virus immune globulin prophylaxis. Pediatrics 1997;99:93-9.

9. Impact-RSV Study Group. Palivizumab, a humanized respiratory syncytial virus monoclonal antibody, reduces hospitalization from respiratory syncytial virus infection in high risk infants. Pediatrics 1998;102:531-7.

10. Brandenburg AH, Neijins HJ, Osterhaus ADME. Pathogenesis of RSV lower respiratory tract infection: implications for vaccine development. Vaccine 2001;19:2769-82.